
Diz quem pratica autos de fé, que Deus escreve certo por linhas tortas. Ah, como eu gostava de provar a todos que assim era, quando pegava num bocado de barro. Mostrar-lhes que de barro somos todos feitos, e que os santos também gostam de se emborrachar e arrotar a óstias. Aquilo dava-me prazer, sentir o molhado do barro como se assistisse a um parto, fechar os olhos, tirar as pedras uma a uma como se cortasse cordões umbilicais com os dentes, e só os abrir para dar uns retoques de pincel que eu sabia não serem para ali chamados...mas que fazer, um artista tem de sobreviver não é? Sabia que se não os pintasse não vendiam. Todos preferiam fechar os olhos e pensar que com cores eram mais fortes, menos quebradiços, assim como faziam com as suas vidas tão pequeninas.
Gostava de olhar para os potes de cores, alinhados na pequena casa alentejana, onde o barro suava no Verão e gemia de estilhaços no Inverno, e pensar para comigo: "Se eles soubessem que estas cores vinham de uma luz que entra por luz nenhuma, por uma ausência de tudo!". Sorria para mim.
Alguém me convenceu a fazer uma salinha lá atrás, onde não deixava os turistas que gritavam sempre very typical fotografar, e onde os santos olhavam de olhos abertos para o vazio esperando sei lá o quê. Deixava-me estar ali ao pé da porta, a ver as pessoas da terra a passar, e a tentar colar-lhes as caras em fanicos nos meus santos tasqueiros. O que eles deixavam no alcool era música para as minhas mãos.
A minha "loja" era mesmo ao lado da tasca, e muitas vezes fui lá buscar inspiração, sabe-se lá para que santinho, que eu de olhos fechados moldava a pensar nas curvas da Amélia do 2º andar.
Essa nunca entrava, passava ao largo e benzia-se baixinho, olhos no chão, lábios na cruz que tinha pendurada ao pescoço, numa prece apressada que mal me via. E como eu olhava aquele pescoço visto de trás! Se calhar é a Amélia que me faz fazer santos, moldar este barro que me enche a loja e me cresce pelos cantos, sem eu nunca o comprar. Os seus olhos esbugalhados são os meus a perseguirem a nuca da Amélia, a roçarem-lhe o começo de cabelo com as pestanas e a inspirar bem fundo o alcool etílico que jorra aqui ao lado. A Benção dela, o meu desejo, as noites de alcool cá da terra, fazem o barro jorrar aqui dentro, onde bate um coração de pássaro. Passo as mãos pelo santo, inspiro, respiro, o coração acelera-se ao ouvir bater a porta do prédio. Era ela...
Entre, entre, sim, sim, very typical...Uma foto? Com certeza mas só aqui.
22-11-01
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