A televisão ainda era a preto e branco, e nem me lembro do que passava naquelas noites. Eu era aquela que o Pai Natal vinha visitar e o estado de excitação era tanto que mal comia. A mesa sempre foi farta, "para durar até aos Reis", diziam-me os meus avós alentejanos. "E nunca se sabe quem nos pode visitar nestas alturas, fica sempre bem ter alguma coisa para aconchegar". A casa cheirava invariavelmente a fritos que começavam a ser feitos alguns dias antes. E a frutos secos. E a pinheiro.
As luzes da árvore, que era sempre um pinheiro pequeno que ia cortar ao pinhal com o meu pai, que custavam a enlear nos braços tenrinhos do pinheiro. A caruma que caía. A minha mãe que dizia "Cuidado sujam-me a sala toda". O meu pai que dizia "Cuidado com os olhos". Ele sempre de volta da fiada de luzes, lâmpadas pequeninas, que por vezes era preciso substituir porque se tinham fundido.
O presépio feito com musgo, apanhado com uma navalha sem fio, nos troncos das árvores e pedras do pinhal. O fresco nas mãos. Colocar num saco de plástico com jeitinho, e pôr no frigorífico mal se chegava a casa, para não murchar. O saco de plástico com gotinhas da respiração do musgo. O dispor assim em encostas, por ali acima, por ali abaixo. Um espelho a fazer de lago onde ficava o cisne e o pescador de barro com uma cana na mão que até tinha um peixe na ponta. E não interessava nada que o cisne fosse maior que o pescador. A romaria até à mangedora onde o menino dormia nas palhas verdadeiras, cosidas pela minha mãe num género de berço tosco que cheirava bem. Um anjo de plástico, também com proporções enormes por cima das palhas (também cosidas) que faziam de mangedora. Era assim uma mangedora tipo palhota de índio, ou fardo de palha antes de haver enfardadeiras. Custava pôr lá as figuras todas, e a vaca e o burro ficavam de fora, com a cabeça lá dentro para aquecer o menino.
Encosta acima pescadores, pastores com rebanhos, lavadeiras. Os reis magos a camelo com as oferendas. "Prata, incenso e mirra" obrigava-me a repetir a minha avó. Casinhas de gente humilde espalhadas pelo musgo. Todas de barro, feitas e pintadas à mão. Figuras compradas noutros natais mais a Sul, e coleccionadas anos a fio. Uma figura em cada ano e o presépio lá se foi compondo ao longo dos tempos. Foram precisas 3 gerações para começar a ser invadido por adereços de plástico, figuras desproporcionais e coisas brilhantes. Houve um ano que enfiei a ultima luz da árvore dentro da palhota da mangedoura, e foi um brilharete! Nesse Natal a electricidade chegou ao presépio.
Nunca havia prendas debaixo da árvore. O papel de embrulho comprava-se às folhas na papelaria da rua (A Pantera Cor de Rosa da sra. Bia), cheirava a novo e por vezes cortava ao ser escolhido e retirado do expositor. Eram uns cortes fininhos, que sangravam e sabiam a um ácido adocicado. Sempre que me feria lembrava-me do papel de Natal. Não me lembro também de ver embrulhar os presentes, apenas de assistir à compra das folhas de papel, umas com motivos mais adultos que outras, vá se lá saber porquê. Mas lembro-me de ouvir "não tem umas mais infantis?" E os laços cheios de brilhos, que todos os anos eram mais caros.
Sei que mal dava a meia-noite a missa do galo começava na televisão. A minha avó pedia silêncio, queria sempre ouvir o bispo de Lisboa. Eu apurava o ouvido para a cozinha. Nunca ouvia nada. Mas mal alguém regressava da cozinha e me dizia que havia alguma coisa para mim debaixo da chaminé, eu corria. E lá estava, em cima do fogão sempre fechado naquele dia, uma prenda! Nem reparava que o papel era o "mais infantil", aquele que às vezes me tinha ferido por ser eu a escolher o que gostava, um luxo! O que quer que fosse, levava minutos a rasgar o papel e durava horas a saborear o presente. Eu sabia que tinha sido só para mim, a pensar em mim. Como as prendas não abundavam no resto do ano havia que aproveitar o momento e tudo era bonito. Lembro-me de uns bonecos de plástico articulados por elásticos nos membros nus, que a minha avó insistia que se chamassem Pedro e Virginia, por causa de uma série que ela via na televisão. Dos livros da formiguinha, das Anitas, das Suzys, das meias e pijamas, das canetas e lápis de cera.
Este ritual durava horas, para fazer a noite ser grande e os presentes parecerem muitos. Normalmente o Pai Natal voltava à cozinha pela chaminé, sempre depois de alguém lá ter ido fazer qualquer coisa inadiável, quando o meu entusiasmo pela última prenda começava a abrandar. Às vezes esperava mais qualquer coisa que teimava em não chegar. O fim era ditado pelos meus avós que punham todos os papéis de embrulho num saco grande para porem no lixo quando saíssem. Os laços eram guardados para o próximo ano porque estavam cada vez mais caros. Mal via o saco em acção já sabia, tinham-se acabado as prendas! Tinha-se acabado a noite de Natal! No fim, depois de todos terem saído, eu arrumava tudo como se fosse um altar, e ia dormir depressa para me levantar cedo e continuar a saborear aquilo tudo.
Uma vez lembro-me que virei a esquina entre a sala e a cozinha tão depressa que bati na parede e cai. Não sei se foi da queda, mas que vi umas botas pretas a esgueirarem-se pela chaminé vi. Ainda hoje sei que vi! E não percebi o porquê de todos se rirem tanto, quando eu disse em alvoroço que tinha visto as botas ao Pai Natal.
1 comentário:
O pai natal não me curtia: deixou-me uma batata dentro da bota ortopédica, em vez de me levar as botas!
:'(
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